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Minicontos
Marcelo Spalding

 

Oficina de Criação Literária

  MINICONTOS EM DESTAQUE

Sem dó

Abriu a partitura na página sem dó. Sorriu e jamais desafinou. (Nicola Vital)

Rei Torto

No reino tupiniquim coroava-se um rei torto. Quando acordei, estava morto. (Nicola Vital)

Lembranças

O embalo suave da cadeira antiga trouxe o passado ao presente. A penumbra de um silêncio miserável, vencido pela alegria das crianças e pelo alvoroço luminoso das festas, acomodou-se na sala vazia. (Walter Ney H Avila)

Nocaute

Ao se ver refletido nos olhos do adversário, socou-o com mais vontade.
(Viriato Moura)

Horizontes

Depois de um tempo, os olhos de Paulino e Rute ainda se encontravam. Mais um tempo, os dela, exploradores que eram, passavam por cima dos ombros dele. Ficaram verdes, azuis, negros, castanhos, deixando os do parceiro perdidos num horizonte frio. (Nunes de Oliveira)

Perfume barato

Estávamos em casa, meu amigo e eu. Como de costume, ele usava seu perfume forte e irritante que tanto gostava. Resolvíamos um assunto importante do trabalho, mesmo assim ele saiu apressado após olhar o relógio. Duas horas depois ouvi a porta abrir e aquele cheiro horrível de perfume invadiu minhas narinas outra vez. Estranhei. Ele nunca entrou sem antes bater. Saí do quarto, fui até a sala e eis que vejo minha mulher retornando do cabeleireiro e me sorrindo sem graça. (Nunes de Oliveira)

Correspondência

Havia deixado escrito, numa folha rasgada do caderno: não foi culpa de ninguém, só estava cansado de existir. (Egberto Guillermo Lima Vital)

Aqueles dois

Fizera os votos, jurara amor eterno - na saúde e na doença -, fitando o olhar para o rapaz que chorava na entrada. (Egberto Guillermo Lima Vital)

Dilema

Era a primeira vez deles no Rio. Música alta no carro, e de repente Paula baixou o volume e prestou atenção na sugestão do GPS. Disse aos amigos que faria outro trajeto. Foi alvo de críticas e piadas: “onde já se viu, a intuição de uma mulher ao volante em vez do algoritmo”. Seguiram o algoritmo e terminaram no meio de um tiroteio na favela. (Luiz Henrique Previdente )

Sagrado Dinheiro

O vendedor, devoto fiel, pede aos céus um dia de boas vendas. Cedinho ele já esta à porta da concessionária. Ao fim do dia e sem nenhum negócio concretizado, seu gerente lhe chama de lado e ordena para que aguarde, pois um cliente especial esta prestes a chegar. Pelos fundos, entram um ilustre senhor acompanhado de um jovem. O rapaz escolhe a melhor motocicleta, pagamento à vista. O vendedor nunca vira tanto dinheiro. O gerente se despede de seu cliente: “sua benção, Padre”.
(Luiz Henrique Previdente )

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