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Micro-contos ou micro-poemas?

Uma coleção de pequenas frases engraçadinhas. É um pouco com esta impressão que fecho o livro Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, organizado pelo escritor recifense, residente em São Paulo, Marcelino Freire. Lembro-me que, quando o livro saiu (há quase um ano), chamou-me atenção nas prateleiras das livrarias, como um pequeno e bonito livro-objeto ideal para “dar de presente”: a edição da Ateliê Editorial é impecável, com uma capa dura vermelha e de um tamanho que cabe na palma da mão. O conteúdo também algo adequado para uma lembrancinha despretensiosa: mini-contos que são mais piadinhas curtas, rápidas “sacadas” de poucas linhas.

O livro parte de uma idéia interessante: convidar cem escritores brasileiros para escreverem um “conto” com apenas 50 letras. Parte, ainda, de um genial micro-conto, de Augusto Monterroso, com o qual Marcelino abre a edição: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Gostaria de ressaltar o fato de que este, que seria o mais famoso micro-conto do mundo, é citado por Ítalo Calvino em seu Seis Propostas para o Próximo Milênio, no capítulo em que ele fala sobre a importância da “rapidez” na literatura. Vale retomar o trecho todo de Calvino: “Borges e Bioy Casares organizaram uma antologia de Histórias breves e extraordinárias. De minha parte, gostaria de organizar uma coleção de histórias de uma só frase, ou se uma linha apenas, se possível. Mas até agora não encontrei nenhuma que supere a do escritor guatemalteco Augusto Monterroso: ‘Cuando despertó, el dinosaurio todavia estaba allí’”.

Acredito que, embora não tenha citado, Marcelino Freire conheça o texto de Calvino e tenha tido a feliz idéia de realizar o desejo expresso pelo escritor italiano. Entretanto, vale retomar a fala de Calvino e acrescentar que, na coletânea de que trato aqui, este micro-conto, parece-me, segue insuperável. Muitos dos textos enviados pelos escritores brasileiros restringem-se ao mero jogo de palavras, ao trocadilho, ou a simples tiradas pretensamente humorísticas. E a grande maioria parece derivada do poema-piada que tanto se proliferou nos anos 70, especialmente com a dita poesia marginal, e que ali, naquele contexto, já aparecia mais bem resolvido em diversos poetas.

Basta pescar ao acaso poemas de alguns representantes desta geração que começou a escrever nos anos 60/70, e que participaram da agitação cultural destes tempos, para encontrar exemplares ideais do conceito de mini-conto que perdura no livro – e com menos de 50 letras! Um poema de Cacaso, de Beijo na Boca (1975) como (título em caixa alta): “‘SINA’/ o amor que não dá certo sempre está por perto”; ou: “‘ORGULHO’/ decresça e/ apareça”. Ou de Paulo Leminski: “– que tudo se foda,/ disse ela,/ e se fodeu toda” (de La Vie em Close). Ou mesmo de Francisco Alvim – ótimos exemplos curtíssimos como: “‘VISITA’/ Não bateram na porta/ Arrombaram” (de Lago, Montanha). E ainda: “‘MAS’/ é limpinha”; ou: “‘ÓRFÃO’/ Sou./ De muitos pais, de/ muitas mães” (de Elefante).

Enfim, poemas bastante precisos, que poderiam ser tidos como “micro-contos”, e que parecem conter mais poder de síntese, concisão, mais humor e mesmo mais “ação”, no sentido dramático, do que muitos dos contos do livro. Julio Cortázar, talvez um dos maiores contistas já surgidos entre nós latino-americanos, refletindo sobre a arte do conto, coloca-a ao lado da fotografia: o conto, como a foto, recorta um fragmento bem preciso e delimitado da realidade e, no entanto, deve fazer com que este fragmento tenha o poder de oferecer uma espécie de explosão que transcenda, rompa os limites da câmera, do texto. Diz ele [no ensaio “Alguns aspectos do conto”]: “(...) o fotógrafo ou o contista se vêem obrigados a escolher e limitar uma imagem ou um acontecimento que sejam significativos, que não apenas tenham um valor em si mesmos, mas que sejam capazes de funcionar no espectador ou no leitor como uma espécie de abertura (...)”. Abertura esta que leva a nossa sensibilidade e inteligência para além do episódio narrado literariamente.

Este é um bom modo de olhar para um conto, ainda mais quando se trata de contos extremamente curtos, em que esta habilidade de delimitação e abertura é de fato posta à prova. Opto por falar aqui dos micro-contos do livro que, ao meu ver, cumpriram muito bem a proposta contida na historieta do dinossauro de Monterroso e se mostraram como soluções felizes. Soluções estas que, de certa forma, apontam para a explosão e a abertura às quais Cortázar se refere.

É o que encontramos na densidade do aparentemente inocente texto de Luiz Ruffato: “‘ASSIM’: Ele jurou amor eterno./ E me encheu de filhos./ E sumiu por aí.”. Ou na ironia de Dalton Trevisan, que se insere em toda uma tradição de personagens da nossa literatura, de Machado, passando por Nelson Rodrigues e pelo próprio Dalton: “– Lá no caixão.../ – Sim, paizinho./ – ...não deixe essa aí me beijar.” Em ambos, uma critica social que passa pelo olhar e a vida do povo brasileiro, que encontramos de modo tão semelhante em Chico Alvim. E que podemos ver também no descontraído: “‘CRIAÇÃO’/ No sétimo dia, Deus descansou./ Quando acordou, já era tarde.”, de Tatiana Blum.

Há ainda o humor desconcertante de: “‘QUEM’/ Sim, doutor, eu estou louco./ Mas quem é esse/ que diz eu estou louco?” (Sérgio Sant’Anna) – micro-história que encarna o próprio problema da não-identidade do louco, mas também a identidade de quem fala: se eu não tenho eu, quem é o eu que isto enuncia? E há o humor quase trágico de: “‘ADEUS’/ Então disse:/ – Viver era isso?/ E fechou lentamente os olhos.” (Miguel Sanches Neto); e de: “‘MAS O RIO CONTINUA LINDO’/ Pensa o desempregado/ ao pular do Corcovado.” (Antonio Torres). Humor um tanto “tragicômico” que podemos encontrar em diversos outros textos, quase como uma prevalência do tom escolhido pelos autores convidados.

De certo modo, este também é o tom usado por Millôr Fernandes. No entanto, como o título não entrava na conta das 50 letras, Millôr aproveitou, e escreveu o que talvez seja um dos mais interessantes textos da coletânea: “‘EMOCIONANTE RELATO DO ENCONTRO DE TEODORO RAMIREZ, COMANDANTE DE UM NAVIO MISTO, DE CARGA, PASSAGEIROS E PESCA, DO CARIBE, NO MOMENTO EM QUE DESCOBRIU QUE A BELA TURISTA INGLESA ERA, NA VERDADE, UMA PERIGOSA TERRORISTA CUBANA, QUE TENTAVA PENETRAR NUM PORTO DO SUL DA FLÓRIDA, PARA DINAMITAR A ALFÂNDEGA LOCAL, E PROCUROU FORÇÁ-LA A FAVORES SEXUAIS’/ – Capitão, tem que me estuprar em 1/2 minuto; às 8, seu navio explode”. Brincadeira divertida, que inverte a proposta do livro, e que, por contraste com os outros textos, acaba sendo ainda mais engraçada.

Termino esta pequena resenha ressaltando a importância de livros que apresentem um gênero híbrido, que contribua para borrar as fronteiras dos gêneros literários tradicionais, como é o caso destes Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Os micro-contos aqui apresentados são contos ou poemas? Claro que não cabe responder. Vale deixar ecoando mais um trecho de Cortázar, para quem o conto é um gênero de dificílima definição, gênero enfim “tão secreto e dobrado sobre si mesmo, caracol da linguagem, irmão misterioso da poesia em outra dimensão do tempo literário”.

Publicado originalmente no Digestivo Cultural

Annita Costa Malufe
05/09/2007

 

 

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